16 de dezembro de 2011

MERLIN : NEIMHEAD

Por Wallace William de Sousa (Ramo de Carvalho)

Merlin pertence, irremediavelmente, ao mundo das lendas. Qualquer tentativa de situar um Merlin histórico é mera especulação, pois não temos nenhuma evidência de sua existência real. Merlin é comumente visto como o arquétipo do Mago, de manto escuro e chapéu pontudo, como Gandalf, mas suas origens são muito mais obscuras do que isso.

Um dos primeiros registros da história da Grã-Bretanha se chama História Brittonum, do monge Nennius. Nessa obra há uma passagem sobre o rei Vortigern que chama muito a atenção: nela, Vortigern tentava construir repetidamente uma torre, que sempre desabava. Consultando seus sábios magos, Vortigern recebe o conselho de banhar as bases com o sangue de uma criança nascida sem um pai. Uma criança chamada Ambrosius foi descoberta com essas características, e foi levada ao rei. Lá, ele é surpreendido com a veemência do jovem, que insiste que ele cave a base onde ele quer construir a torre até que água fosse encontrada. Quando a água surge, e a lua banha o local, dois dragões surgem, um branco e um vermelho, lutando. O garoto diz a Vortigern que os dragões representam os Saxões e os Britânicos, e que haverá uma batalha definitiva entre eles. Geoffrey de Monmouth chama esse jovem, no seu Historia Regum Brittania, de Merlinus Ambrosianus, uma adaptação do nome Galês Myrddin Emrys. Mas o problema da obra de Geoffrey é o fato de parecer que ele usa dois personagens distintos: o primeiro, de óbvia origem Britano-Romana é Merlinus Ambrosianus. O outro é o Galês Myrddin Wyllt.

Esse segundo teria servido como Bardo na corte do rei Rhydderch Hael, sendo ele mesmo filho de alta estirpe no oeste Britânico. Mas na Batalha de Arderydd, ele fica louco, e parte para se refugiar nas florestas, onde passa sua vida vaticinando sobre o futuro da Brittania, vivendo apenas na companhia das feras, aparecendo para os homens apenas quando uma catástrofe estava por vir. Esse Merlin foi retratado por Geoffrey em seu trabalho Prophetiae Merlini. O outro Merlin, Merlinus Ambrosianus/Myrddin Emrys é o garoto sem pai, filho de uma entidade mística (nos tempos Cristãos da era medieval, visto como um demônio, mas entendido que, se essa lenda realmente remontar ao passado Celta, poderia ser alguma divindade em sua versão original). Ele se torna o lendário conselheiro de Arthur, e um de seus mentores, bem como o tutor de sua irmã, Morgana, até que é aprisionado por outra de suas discípulas, a fada Nimue (conhecida pelas versões Francesas como Viviane) em uma caverna de cristal, na floresta de Broceliande (na Bretanha Francesa, há a Floresta de Brekilien). Geoffrey de Monmouth une os dois personagens, e eles costumam ser unidos com outros mais. Um deles sendo o Bardo Taliesin, a mais mítica personagem da literatura Galesa medieval (mais do que o próprio Arthur), e o louco da floresta Lailoken. Outras referências literárias são os poemas nos Quatro Livros Antigos do País de Gales. Tanto Merlin quanto Taliesin têm inúmeros poemas atribuídos a eles, muitos mostrando o teor comum da cultura Celta, com seus louvores à natureza, outros com teor profético, e alguns ainda com força mágica. À Merlin é atribuído principalmente o poema chamado Afallenau (pronuncia: avahlenai), que seria a primeira referência à Glastonbury com o nome Avalon. Essas referências, junto às compilações de Geoffrey de Monmouth, são as principais citações antigas a Merlin, mesmo que Monmouth seja um autor medieval reescrevendo lendas antigas ao seu próprio modo. Mas já nos dão material para analisar o teor da mitologia Celta neles.

Começando pela lenda de Vortigern, uma possível evidência de sobrevivência mitológica-cultural pré-Cristã é o fato de ser exigido que a criança sem pai fosse sacrificada para que a torre fosse construída. Se esses magos e sábios que aconselhavam o rei fossem Druidas, ainda que não fossem chamados pelo nome, a evidência do sacrifício humano não seria tão estranha. A criança com o nascimento virginal é comum a várias culturas e religiões, sendo a mais conhecida o Cristianismo, mas existente em todo o mundo Ocidental e no Oriente Médio. Na mitologia Celta, não apenas Merlin, mas Taliesin e Cuchúlainn partilham dessa forma de concepção, ainda que seja sempre por alguma influência sobrenatural. Geoffrey de Monmouth sugere que o nascimento de Merlin seria devido a um espírito infernal, ainda que, se ele estivesse realmente se baseando em versões folclóricas, é possível que o pai de Merlin fosse originalmente alguma entidade da mitologia Galesa. A batalha dos dragões é um símbolo da guerra entre Britânicos e Germanos, que viriam a um dia a dominar a região mais rica da ilha e a batizar de Inglaterra (a Terra dos Anglos). Os Celtas, derrotados pelas ondas Germânicas, recuariam até o Oeste, onde resistiriam. O Dragão Vermelho (Draig Goch) se tornaria o símbolo do Pendragon Arthuriano e vive até hoje na bandeira do País de Gales, onde a língua e parte da cultura Britânica original persistem.

Já o Myrddin Wyllt tem relações diferentes. Por nascimento, ele seria um nobre de Gwynedd, no norte de Gales, e seria um bardo na corte de um rei Galês. Em uma batalha, ele enlouquece, e vai viver em meio aos animais da floresta, fazendo profecias sobre o futuro da Brittania. Esse Merlin tem conotações místicas não no seu nascimento, mas na sua posição. Ele é um Bardo, uma das posições com influência sacerdotal na sociedade Celta. Na mitologia Galesa, muitas vezes o papel do Druida era substituído pelo do Bardo, mais adequado à moral Cristã dos monges compiladores, e isso poderia dizer que Bardos com muitas habilidades mágicas seriam, na verdade, Druidas “adaptados”. Ao ver a carnificina na Batalha de Arderydd, ele fica louco e parte para viver entre os animais. Essa é uma instância muito comum nas mitologias em geral, mas na mitologia Celta em particular ela toma uma forma profética. A loucura é muitas vezes associada à sabedoria, e vemos o mesmo acontecer com o Irlandês Suibhne Geillt, e o misterioso Lailoken, que muitas vezes é associado ao próprio Merlin. Normalmente, no meio místico, não vemos esse processo como uma “loucura” pura e simples, mas como um estado de consciência alterado, semelhante ao xamanismo.

Uma lenda dizia que, se alguém treinado dormisse em determinada montanha da Irlanda, acordaria ou louco, ou morto, ou um poeta. O processo da busca iniciática pela iluminação une esses três pontos, onde o risco de tender para uma das duas primeiras opções equivale à possibilidade de atingir o Imbas. No País de Gales, Giraldus Cambrensis cita os Awenyddion, uma casta de poetas itinerantes, que possuíam capacidades proféticas e que quando vaticinavam, pronunciavam “palavras desconexas, mas que faziam todo o sentido”. A capacidade profética é sempre intimamente ligada ao estado alterado da consciência, pois a mente em estado racional é incapaz de ver além dos seus sentidos mundanos.

A lenda de Merlin (e de Arthur) é sempre intimamente ligada com a lenda de Morgana. Mas a verdade mais impressionante é que Morgana não aparece nas versões mais antigas da lenda. Ela só passa a ser citada por Chrétien de Troyes, na migração da lenda para a França, e depois adquire sua forma definitiva (ou quase, afinal, os nossos dias tendem a transformar Morgana em heroína) com Sir Thomas Mallory. Ainda assim, algumas palavras sobre ela se fazem mais do que necessárias. Morgana é, certamente, um nome de origem Celta, mas a etmologia é incerta. Se for de origem Britonica, seu significado pode vir de Mor Canu (Canção do Mar), ou Mor Gân (“que veio do Mar”), mas há uma possibilidade de seu nome ser uma adaptação do Gaélico Morrighan (Grande Rainha). Havia um assentamento Gaélico na Demétia, no Oeste de Gales, então uma influência Gaélica na lenda não seria impossível, mas na mitologia Irlandesa, Morrighan é sempre uma deusa, enquanto Morgana é uma mulher mortal. Porém, os mitos Britonicos sofrem muito mais influência Cristã que os Gaélicos, e a “humanização” desse porte não seria estranha aos monges Galeses. Morgana, em si, partilha de muitas semelhanças com a deusa Morrighan, mas não é possível afirmar que uma seja a versão da outra com certeza. Já Nimue/Viviane, ela surge mais tarde na lenda, mas quase ao mesmo tempo na história. Ela é parte do povo das fadas (Tylwyth Teg ou Sidhe), mas sua habilidade mágica é aprendida com Merlin. Quando ela consegue aprender tudo o que precisa com o velho mago, ela o aprisiona em uma jaula de cristal na floresta de Broceliande, próximo à fonte de Barenton, onde foram amantes.

Apesar do teor lendário dessa história, ela remete a um procedimento xamânico muito comum, onde o aprendiz sacrifica simbolicamente o seu mestre para tomar seu lugar. Outro parceiro de peripécias de Merlin é Taliesin. Muitas vezes confundido com o próprio Merlin (em grande parte, por serem assim retratados em “As Brumas de Avalon”, de Marion Zimmer Bradley), não temos como afirmar que seriam realmente um só. Taliesin, como Myrddin Wyllt, é um bardo, mas nunca enlouquece. Na verdade, sua mitologia é extremamente complexa: ele é nascido Gwion Bach, até ser escolhido pela deusa Ceriddwen para participar da criação de uma poção mágica que daria a sabedoria suprema para seu filho, Afaghdu. Porém, a sabedoria termina por vir ao próprio Gwion, que é caçado ferozmente por Ceriddwen, com ambos se transformando em animais da Terra, do Céu e do Mar, mas que termina oculto na forma de um grão de trigo, que é devorado por Ceriddwen, na forma de uma galinha. Nove meses depois, ela dá a luz a um garoto, que ela atira ao mar. Esse garoto, resgatado pelo nobre Elphin, recebe o nome Taliesin (“fronte radiante”), e se torna o mais lendário Bardo da tradição Galesa. Sua lenda tem pouquissimas relações com Arthur, mas um texto de um de seus poemas diz:

"O profeta João me chamou de Merlin
Mas os homens me conhecerão como Taliesin."

Não é um indício forte de que sejam o mesmo personagem, mesmo porque um dos poemas no Livro Negro de Carmarthen é o Ymddidam Myrddin a Taliesin (“O Diálogo de Merlin e Taliesin”). É um assunto vasto, mas as mitologias divergentes nos parecem indicar que são personagens distintos. Mas de todos os parceiros de Merlin, nenhum é mais importante do que o lendário Rei Arthur.

RAMO DE CARVALHO: GRUPO DE ESTUDOS SOBRE A ESPIRITUALIDADE CÉLTICA (DRUIDISMO/RECONSTRUCIONISMO)

Leia também: A Fuga Mágica - Cerridwen e Gwyon

Bênçãos do Céu, da Terra e do Mar!

Rowena Arnehoy Seneween ®


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